Conteúdo baseado em reportagem da Reuters e em pesquisas Quaest, AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha e Nexus/BTG · Atualizado em julho de 2026
A menos de quatro meses das eleições presidenciais de outubro, um dado vem chamando a atenção de institutos de pesquisa e analistas políticos: a Geração Z brasileira, formada por jovens de 16 a 29 anos nascidos majoritariamente durante os governos do PT, deixou de ser um bloco automaticamente favorável a Luiz Inácio Lula da Silva. Levantamentos recentes mostram uma parcela relevante desse grupo migrando para candidatos de direita, num movimento que coincide com tendências semelhantes observadas em outros países.
O fenômeno ficou mais evidente depois que a agência Reuters publicou, em 24 de junho, uma reportagem mostrando jovens que apoiaram Lula em eleições passadas hoje planejando votar na oposição. O caso não é isolado: uma sequência de pesquisas divulgadas ao longo de 2026 aponta na mesma direção.
Resumo rápido: o que as pesquisas mostram
- A virada: jovens de 16 a 34 anos formam hoje a única faixa etária em que a desaprovação ao governo Lula supera a aprovação, segundo a Quaest.
- A identidade política: pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg indica que mais da metade da Geração Z se identifica com a direita ou o centro-direita.
- O motivo apontado: frustração com estagnação econômica, piora da segurança pública e escândalos de corrupção, segundo analistas ouvidos pela Reuters.
O que revelam as pesquisas mais recentes
Uma pesquisa da Quaest divulgada em junho de 2026 mostrou que os brasileiros de 16 a 34 anos são a única faixa etária em que a desaprovação ao governo supera a aprovação — um cenário diferente do observado entre eleitores mais velhos, que ainda mantêm avaliação mais favorável ao petista.
O movimento já vinha sendo sinalizado por outros institutos. Em março, uma pesquisa da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, realizada entre os dias 18 e 23 daquele mês, apontou que 72,7% dos jovens de 16 a 24 anos rejeitavam a administração de Lula. Um mês depois, em abril, um levantamento da Genial/Quaest mostrou pela primeira vez o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à frente de Lula entre eleitores de 16 a 34 anos: 46% contra 38%.
Além da avaliação de governo, há também uma mudança mais estrutural na identidade política desse grupo. Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg LatAm Pulse Brasil, de novembro de 2025, mostrou que 52% da Geração Z se identifica com a direita ou o centro-direita, contra 31% que se declaram de esquerda ou centro-esquerda — a maior identificação com o campo direitista entre todas as gerações medidas no levantamento.
Por que essa geração está mudando de lado
A reportagem da Reuters ilustra a mudança com o caso do tradutor de videogames Ricardo de Lima Filho, de 34 anos, que votou em candidatos de esquerda ao longo de toda a vida adulta, incluindo em Lula no segundo turno de 2022, e hoje pretende votar em um candidato de direita. Ele resumiu à agência: “Vivi a maior parte da minha vida adulta sob governos do PT.”
Os três motivos mais citados: percepção de estagnação econômica mesmo após anos de formação profissional; aumento da preocupação com segurança pública; e repercussão de escândalos de corrupção associados à política tradicional.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, explicou à Reuters que parte dessa juventude concluiu estudos superiores nos últimos anos, mas não encontrou no mercado de trabalho o retorno econômico esperado — uma frustração que, segundo ele, mina a confiança no discurso econômico tradicionalmente associado à esquerda brasileira.
Um fenômeno que não é exclusividade do Brasil
A Reuters destaca que os jovens brasileiros estão entre os mais identificados com a direita em toda a América Latina, e que essa tendência é mais intensa entre os homens jovens. O padrão acompanha um movimento observado também na Europa, nos Estados Unidos e na Coreia do Sul, onde o distanciamento entre gerações mais jovens e a esquerda tradicional também vem sendo registrado — uma pesquisa de 2024 conduzida por uma fundação ligada ao Partido Social-Democrata alemão mostrou que 38% dos jovens do país se declaravam de direita.
| Instituto / Data | Faixa etária | Principal achado |
|---|---|---|
| AtlasIntel/Bloomberg — mar/2026 | 16 a 24 anos | 72,7% rejeitam o governo Lula |
| AtlasIntel/Bloomberg LatAm Pulse — nov/2025 | Geração Z | 52% se identificam com direita/centro-direita |
| Genial/Quaest — abr/2026 | 16 a 34 anos | Flávio Bolsonaro à frente de Lula (46% a 38%) |
| Quaest — jun/2026 | 16 a 34 anos | Única faixa com desaprovação maior que aprovação ao governo |
Da geração que cresceu com Lula à geração que hoje o rejeita
A Geração Z brasileira reúne quem nasceu majoritariamente entre 1997 e 2012 — ou seja, uma parcela expressiva cresceu durante os governos petistas e vive agora a primeira ou segunda eleição presidencial em que pode votar. Uma análise publicada pelo Le Monde Diplomatique Brasil observa que esse grupo, hoje com 16 a 24 anos, representa cerca de 12% do eleitorado em 2026, contra 21% em 2002 — ano da primeira eleição de Lula, quando o Datafolha media 43% de intenção de voto nele entre jovens de 16 a 20 anos.
Apesar de numericamente menor, a mesma análise argumenta que esse eleitorado se tornou mais imprevisível e, em conjunto, mais permeável a discursos de direita — o que pode ter peso desproporcional em uma eleição historicamente decidida por margens estreitas.
O que isso pode significar para outubro
Pesquisas eleitorais de abril de 2026 — AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha e Nexus/BTG — indicam uma disputa muito mais equilibrada entre jovens de 16 a 24 anos do que a observada em 2022. Em um dos cenários da AtlasIntel/Bloomberg, no primeiro turno, Lula aparece com 28,5% nessa faixa, Flávio Bolsonaro com 36,6% e Renan Santos com 22,4%; em outro cenário, Lula cai para 17,4%, enquanto Flávio sobe a 37,7% e Renan a 21,3%. Na média aproximada dos levantamentos, Lula fica perto de 36% e Flávio perto de 35% entre os mais jovens no primeiro turno.
Uma simulação feita pelo Le Monde Diplomatique Brasil a partir desses dados sugere o tamanho do risco: caso o padrão de voto jovem de 2022 não se repita, Lula perderia a eleição em quatro de cinco cenários testados, com a oposição somando entre 50,5% e 51,2% dos votos; apenas no cenário mais otimista para o governo ele ainda venceria, por margem mínima de 50,2%. Se a erosão de apoio também atingir parte do eleitorado acima de 25 anos, a desvantagem sobe para 51,9%.
Nem todos leem os números da mesma forma
A interpretação do fenômeno varia conforme o espectro político de quem analisa. Veículos alinhados à direita, como a Revista Oeste e a Gazeta do Povo, tratam o avanço da direita entre os jovens como reflexo de um cansaço legítimo com o desempenho econômico e com escândalos de corrupção associados ao governo. Já análises publicadas por veículos de esquerda, como o Le Monde Diplomatique Brasil, descrevem o mesmo movimento como uma “crise de representação” mais ampla, na qual a esquerda teria perdido a capacidade de se apresentar como alternativa crítica e atraente para essa geração.
Pesquisas acadêmicas sobre o tema também chamam atenção para a heterogeneidade do fenômeno: um estudo sobre jovens ativistas de direita e extrema direita no Brasil e na Alemanha, conduzido na Universidade de São Paulo, mostrou trajetórias e motivações bastante distintas entre os entrevistados, que iam do conservadorismo como estilo de vida a críticas a movimentos feministas e LGBTQI+ — sugerindo que “migrar para a direita” não descreve um único tipo de jovem ou uma única causa.
Vale ainda uma ressalva sobre o alcance do fenômeno: uma pesquisa local realizada no Grande ABC paulista, com jovens de 18 a 29 anos, mostrou que a grande maioria (95,7%) ainda considera o voto “muito importante” para promover mudanças na sociedade, mesmo desconfiando do funcionamento das instituições políticas — um sinal de que o distanciamento em relação ao governo Lula não equivale, necessariamente, a um afastamento da democracia ou do processo eleitoral em si.
Perguntas frequentes
O que exatamente é a Geração Z, nesse contexto?
É o grupo nascido, de forma geral, entre 1997 e 2012. Nas pesquisas eleitorais citadas, o recorte mais comum usado para medir esse eleitorado é o de 16 a 24 anos ou, em levantamentos mais amplos, de 16 a 34 anos.
Isso significa que Lula vai perder a eleição de 2026?
Não. As pesquisas mostram erosão de apoio entre os jovens, mas Lula mantém índices de popularidade elevados no eleitorado em geral e segue à frente em vários cenários de primeiro e segundo turno. Os dados sobre a juventude indicam risco e imprevisibilidade, não um resultado já decidido.
O movimento é mais forte entre homens ou mulheres jovens?
Segundo a Reuters e a AtlasIntel, o fenômeno é mais intenso entre os homens jovens, embora apareça, em menor grau, no conjunto da geração.
Esse tipo de mudança acontece só no Brasil?
Não. A Reuters aponta que o distanciamento de jovens em relação a partidos de esquerda tradicionais também vem sendo observado em países da Europa, nos Estados Unidos e na Coreia do Sul, especialmente entre homens jovens.
Os jovens estão desistindo de votar ou da democracia?
Os dados disponíveis não sustentam essa conclusão. Pelo contrário: pesquisas locais mostram que a maioria dos jovens continua valorizando o voto como ferramenta de mudança, mesmo desconfiando das instituições políticas tradicionais.
Conclusão: uma geração mais imprevisível, não necessariamente definida
Os números reunidos por diferentes institutos ao longo de 2026 convergem para um mesmo diagnóstico: a Geração Z brasileira deixou de ser um bloco confiável de apoio a Lula e passou a se dividir de forma mais equilibrada — e, em vários recortes, favorável — à direita. As explicações apontadas por pesquisadores giram em torno de frustração econômica, insegurança e desgaste com escândalos de corrupção, num movimento que ecoa tendências semelhantes observadas em outras democracias.
Fontes consultadas
- Revista Oeste — Geração Z está abandonando o Lula, diz Reuters
- ContraFatos — Jovens abandonam Lula e puxam onda à direita, diz Reuters
- Blog TV Websertão — Geração Z se afasta de Lula, diz análise da Reuters
- Revista Oeste — A Geração Z virou à direita
- Revista Oeste — Mais de 70% da geração Z rejeita o governo Lula, diz pesquisa
- Le Monde Diplomatique Brasil — O paradoxo eleitoral da juventude brasileira em 2026
- Gazeta do Povo — Pesquisa mostra que maioria dos jovens brasileiros é de direita
- Jornal da USP — Pesquisa investiga ativismo de jovens nas direitas radicais do Brasil e da Alemanha
- Diário do Grande ABC — Jovens acreditam no voto, porém, desconfiam das instituições políticas
