Brasileiros têm intensificado a busca por oportunidades no exterior, e a obtenção de cidadania europeia — especialmente a italiana — se tornou um fenômeno marcante nos últimos anos. Dados oficiais mostram que o Brasil lidera o número de pessoas que tiveram reconhecida a cidadania italiana por ius sanguinis (direito de sangue), respondendo por cerca de 60,8% dos casos fora da Itália em 2024, o que corresponde a quase 69 mil reconhecimentos entre descendentes no ano passado.
O interesse dos brasileiros pela dupla cidadania está diretamente ligado a fatores econômicos e sociais. A busca por qualidade de vida, acesso facilitado ao mercado de trabalho europeu e oportunidades educacionais são frequentemente citados por especialistas como motivos que impulsionam o movimento migratório. Além disso, dados estatísticos apontam que brasileiros ficaram entre as dez nacionalidades que mais obtiveram cidadania de países da União Europeia em 2022, com quase 70% das concessões ocorrendo na Itália e em Portugal.
O forte vínculo histórico entre Brasil e Itália ajuda a explicar essa tendência. Estima-se que cerca de 30 milhões de brasileiros tenham ascendência italiana, fazendo do país a maior comunidade ítalo-descendente fora da Europa. Esse legado migratório iniciado no final do século XIX ainda tem impacto significativo na atual demanda por reconhecimento de cidadania.
No entanto, o cenário mudou recentemente em razão de alterações legislativas na Itália. Em março de 2025, o governo italiano aprovou um pacote de medidas que estabelece novos critérios para o reconhecimento do ius sanguinis, limitando o acesso automático em certas situações e impondo critérios mais rígidos para evitar abusos no processo. Segundo o governo italiano, a intenção é valorizar o vínculo efetivo entre o requerente e o país e reduzir a chamada “comercialização” de passaportes.
As mudanças têm gerado reação no Brasil. Uma petição com mais de 52 mil assinaturas pede a revogação das restrições e a valorização das comunidades italianas no exterior, além de melhorias nos serviços consulares para agilizar processos de reconhecimento.
Paralelamente, o aumento de brasileiros vivendo no exterior tem sido documentado em levantamentos recentes. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), a diáspora brasileira ultrapassou a marca de 5 milhões de pessoas, com um crescimento de aproximadamente 9% em 2023 em relação ao ano anterior. Grande parte desses emigrantes é composta por jovens e profissionais qualificados que buscam melhores perspectivas de vida.
Analistas apontam que o efeito combinado de instabilidade econômica, limitações no mercado de trabalho e aspirações por mobilidade internacional tem impulsionado não apenas a busca por cidadania europeia, mas também o interesse em estudar, trabalhar ou residir na Europa de forma mais estável. Embora não existam dados oficiais que identifiquem um único motivo para a migração, os números recentes confirmam que a tendência de brasileiros buscando oportunidades fora do país continua em alta.
Essa crescente demanda por cidadania europeia e a perspectiva de uma vida mais segura e com maior acesso a serviços públicos de qualidade refletem um movimento social complexo, influenciado tanto por condições internas no Brasil quanto por mudanças nas políticas migratórias de países europeus.